Intercâmbio da moda e arte entre França e Brasil

Postado por Angela Pepe  |  05/06/2021

foto da capa Fifi Tong

Entre uma ponte aérea Porto Alegre – Paris e outra, temos a oportunidade de aprender e trocar ideias com a curadora gaúcha Giselle Padoin. Sempre que pode (e fora da pandemia) ela vem a Paris se inspirar da arte e da moda europeias e nos dá o prazer de encontros e conversas inteligentes.

Giselle Padoin no Museu de Artes Decorativas de Paris/ Alain Mingam

Após mais de 20 curadorias no Brasil todo, ela assina esse ano "A Arte da Moda - Histórias Criativas" em cartaz atualmente no Farol Santander em São Paulo. Acompanhamos (à distância) o trabalho incansável dessa pesquisadora que não mede esforços para trazer uma mostra cheia de informações, rica em dados e beleza para os olhos (e alma). Detalhe, com peças da Dior enviadas diretamente de Paris para a exposição no Brasil.

“A arte da moda – histórias criativas ressalta a profunda influência da revolução estética que se iniciou em Paris sobre artistas, personalidades do meio cultural e costureiros a partir dos anos 1910. Além disso, pretende-se mostrar o enorme impacto na formação da cultura moderna e contemporânea brasileiras da moda e da arte e a sua evolução histórica e cronológica.

As conexões entre a moda e as artes de Paris com o Brasil desde o início do século XX  inovaram e impulsionaram a criação de moda até hoje, gerando trabalho, movimentando a economia e também provocando o desejado reconhecimento do produto brasileiro no exterior. A partir dos anos 50 até os anos 70, estilistas e expoentes da alta-costura brasileira iniciaram uma produção autoral e ganharam projeção nacional assumindo ao longo dos anos um estilo mais brasileiro.

Os dois andares dispostos para a exposição pretendem despertar no visitante a consciência do fazer moda-arte, acionar seus sentimentos arquetípicos do vestir-se e estimular a valorização do trabalho criativo, através de sua participação nos processos mais elaborados da criação de moda dentro dos ateliers de moda contemporâneos, tradicionais e de alta-tecnologia do Brasil e do mundo”, apresenta Giselle na introdução da exposição.

Abaixo uma entrevista exclusiva feita por e-mail na qual levantamos questões atuais sobre moda e arte:

Brasil Europa: Você faz quase que um movimento antropofágico atual resgatando a história para irmos adiante. Quero afirmar que você seria uma “Tarsila da nossa época”: sempre consumindo a arte europeia (francesa) e adaptando no Brasil. De quantas exposições você já foi curadora?

Giselle Padoin: A sua análise me deixa muito honrada. A pesquisa sempre me fascinou, porque acabamos sempre descobrindo coisas inesperadas. A moda e a arte tem a particularidade de conectar vários assuntos, são múltiplas! Sou pesquisadora de história da moda e da arte e curadora ;  possuo mais de 20 curadorias, além de palestras, cursos e artigos publicados sobre moda & arte.


por Fifi Tong

BE: Produto brasileiro. Noto que praticamente toda roupa que compramos no Brasil tem na etiqueta “made in Brazil”. Ao passo que, na Europa, é incomum ter algo feito aqui. Raras maisons conseguem produzir uma peça feita totalmente na França, por exemplo. Dificuldade imposta principalmente pelo alto custo da mão de obra, impostos. A cada dia vejo novas confecções feitas no Brasil com puro bom gosto. Com custo-benefício bom. Acha que essa seja uma vantagem no Brasil ou não é bem assim?

GP: O empreendedorismo é forte no Brasil. Especialmente, durante a pandemia a economia criativa vem crescendo e colocando no mercado inúmeras marcas que têm apresentado um trabalho feito à mão primoroso. Temos o privilégio de contar com materiais naturais, que propiciam uma produção diferenciada. Além do mais, a cultura brasileira miscigenada é extremamente inspiradora, um incentivo para o trabalho autoral em ateliês de pequeno e médio porte com preços convidativos. Há um movimento, cada vez maior, inclusive, das grandes lojas que estão olhando para a produção nacional, fazendo colaborações com estilistas que vêm disponibilizando também uma moda mais eco-friendly. Na Europa, por exemplo, o hand-made é também excepcional, e é considerado e preservado como um patrimônio cultural. As criações mais exclusivas atendem as grandes casas de alta-costura, como Chanel, Dior, Yves Saint Laurent, mas atingem valores que são para o consumo de poucos. Nas grandes cadeias, há o predomínio ainda de roupas produzidas fora da Comunidade Europeia. Se compararmos com o Brasil, certamente a oferta mais expressiva de mão-de-obra aqui, resulta em produtos genuínos do país com um custo-benefício melhor.


por Alain Mingam

BE: Que futuro você vê para a moda (e/ou arte) no Brasil? Acha que seria o mesmo para a França e/ou resto do mundo? Algumas outras características além da sustentabilidade, por exemplo?

GP: Vejo a moda brasileira aproveitando cada vez mais a expressão cultural legítima de nosso país, explorando as temáticas da natureza abundante e valorizando o que temos de mais desejado: o algodão orgânico, a seda, as rendas, a palha, as pedrarias, a lã, o couro, etc. As colabs com artistas vêm crescendo e o trabalho dos ateliês é mais procurado.

Acredito também que a pandemia provocou um “olhar mais atento para o próprio país” tanto aqui quanto na França, na Europa em geral, até em função das restrições de deslocamento, transporte e tal...o que de certa forma foi bem positivo. Naturalmente, as pessoas que trabalham em toda a cadeia da moda devem ser mais valorizadas e o desperdício está definitivamente com os dias contados.

BE: Do ponto de vista estrutural, técnico, foi difícil encontrar, buscar os figurinos, materiais reunidos hoje no Farol Santander em São Paulo?

GP: Foi uma pesquisa de quatro anos, muitas viagens e visitas a museus e coleções privadas. O desafio maior foi reunir as coleções de instituições e locais tão diferentes; e montar a exposição no “abre e fecha” da pandemia e das fronteiras, já que as peças da Dior vieram de Paris!


por Fifi Tong

Serviço:

Até dia 25 de julho de 2021 no 19º e 20º andares do Farol Santander em São Paulo. Aberto de terça a domingo das 9h às 20h com reserva prévia.


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